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A mulher na literatura brasileira

Quando falamos sobre literatura, percebemos que muitos autores conquistaram espaço de destaque. Inclusive, alguns nomes de escritores masculinos surgem instantaneamente em nossas mentes. Isso quer dizer que as mulheres não têm interesse neste ofício? Não. Definitivamente, não. Muitas mulheres têm um papel fundamental na arte da escrita, mas poucas autoras recebem a devida importância. 

Atualmente, mesmo alcançando um importante espaço na literatura, o número de escritoras continua sendo menor em comparação ao de escritores. É possível confirmar essa realidade pesquisando listas de eventos literários, como a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) ou a Semana de 22 (Semana de Arte Moderna).

Por questões históricas, as mulheres permaneceram à sombra dos homens em muitos aspectos, inclusive artísticos e culturais. Mesmo assim, elas estiveram presentes, agregando valor ao mundo da literatura. Contam que o primeiro romance do qual se tem notícia foi escrito por uma mulher: Murasaki Shikibu, uma japonesa da classe nobre, que escreveu no ano 1007 um livro chamado “A História de Genji”. Assim como ela, muitas escritoras continuam ganhando destaque na literatura mundial como Jane Austen, Virginia Woolf, J. K. Rowling, Agatha Christie, Hilda Hist, Stephenie Meyer, Suzanne Collins, Gillian Flynn, Veronica Roth, Cassandra Clare, Cornelia Funk, Cressida Cowell, entre outras.

Na literatura brasileira, historicamente, temos um marco que pode representar a abertura de portas para as escritoras brasileiras: o século XX. A partir daí, as mulheres vêm conquistando, com muita luta, seu posto na literatura e podem nos encantar com suas percepções sobre o mundo.

Alguns exemplos importantes: 

Nísia Floresta Brasileira Augusta 

Nascida no Rio Grande do Norte, foi uma das primeiras mulheres a romper o espaço particular dos homens na literatura e publicou textos em jornais. Seu livro, “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1932), é o primeiro a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho no Brasil. 

Ana Eurídice Eufrosina Barandas

Considerada a primeira cronista do país, a autora gaúcha do conto “Eugênia” ou a “Filósofa Apaixonada” (1845), é a primeira autora brasileira de ficção do primeiro texto ficcional do feminismo brasileiro chamado “Diálogos”. Neste texto, o primeiro texto ficcional do feminismo em nosso país, Ana Eurídice revela a motivação para a obra, contando que a Revolução Farroupilha estimulara as mulheres a comentar, pela primeira vez, os fatos políticos, cuja influência elas sofriam diariamente em seus lares.

Raquel de Queiroz

Rachel de Queiroz nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza (CE), e foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Ainda muito jovem, com apenas vinte anos, destaca-se através da publicação do romance “O Quinze”, o qual aborda a triste realidade dos retirantes nordestinos, drama este que a escritora vivenciou. Sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, fugindo das sequelas que a seca de 1915 ocasionou no Nordeste. Contudo, permanecem na capital por pouco tempo até fixarem-se em Belém do Pará. Após esse evento, Rachel retorna com a família para o Ceará, onde forma-se professora com somente quinze anos de idade. De volta à fazenda dos pais, em Quixadá, dedica-se à leitura de literaturas nacionais e estrangeiras e começa seus primeiros escritos. Por causa de uma publicação no jornal O Ceará, a escritora é convidada pelo diretor a ser colaboradora. Depois muda-se para Maceió, em 1935, e passa a ter contato com outros escritores: Jorge de Lima, Graciliano Ramos, José Lins do Rego. Com a chegada do Estado Novo, seus livros e de seus amigos escritores são queimados na Bahia, sob acusação de serem revolucionários. Em 1937, é presa por apoiar a facção marxista apoiada nas idéias de Trotski. Algum tempo depois, com o falecimento do revolucionário, abandona os ideais esquerdistas. Em 1939, separa-se de seu marido e muda-se para o Rio de Janeiro, onde publicou o livro “Três Marias” (1939). 

 

Clarice Lispector

Nasceu na Ucrânia, mas seus pais imigraram para o Brasil pouco depois. Chegou a Maceió com dois meses de idade, com seus pais e duas irmãs. Em 1924, a família mudou-se para o Recife. Três anos depois, transferiu-se com seu pai e suas irmãs para o Rio de Janeiro. Em 1939, Clarice Lispector ingressou na faculdade de direito, formando-se em 1943. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal A Noite. Seu primeiro romance foi publicado em 1944, “Perto do Coração Selvagem”. No ano seguinte a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. Dois anos depois publicou “O Lustre”. Em 1954, saiu a primeira edição francesa de “Perto do Coração Selvagem”, com capa ilustrada por Henri Matisse. Em 1956, Clarice Lispector escreveu o romance “A Maçã no Escuro” e começou a colaborar com a Revista Senhor, publicando contos. Em 1960, publicou seu primeiro livro de contos, “Laços de Família”, seguido de “A Legião Estrangeira” e de “A Paixão Segundo G. H.”, considerado um marco na literatura brasileira. Sua carreira literária prosseguiu com os contos infantis de “A Mulher que matou os Peixes”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e “Felicidade Clandestina”. Nos anos 70, Clarice Lispector ainda publicou “Água Viva”, “A Imitação da Rosa”, “Via Crucis do Corpo” e “Onde Estivestes de Noite?”. Reconhecida pelo público e pela crítica, em 1976 recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte publicou “A Hora da Estrela”, seu último romance, que foi adaptado para o cinema, em 1985. Clarice Lispector morreu de câncer, na véspera de seu aniversário de 57 anos.

Nélida Pinon

Escritora e jornalista carioca, ganhou o Prêmio Juan Rulfo de Literatura Latino-americana e do Caribe (1995), pela primeira vez concedido a uma mulher e a um autor da língua portuguesa. Ocupa, desde 1990, a Cátedra Stanford do Departamento de Humanidades da Universidade de Miami. Foi também a primeira mulher a ser Presidente da Academia Brasileira de Letras. Autora do livro de contos “O Calor das Coisas” (1980) e dos romances “A Força do Destino” (1977), “A Doce Canção de Caetana” (1987), “A Cada da Paixão” (1972) e do romance infanto-juvenil “A Roda do Vento” (1996).

Cora Coralina 

Foi uma poetisa e contista brasileira que publicou seu primeiro livro quando tinha 75 anos. A partir daí, tornou-se uma das vozes femininas mais relevantes da literatura nacional. Ana Lins dos Guimarães Peixoto, conhecida como Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás, no Estado de Goiás, cursou apenas até a terceira série do curso primário. Cora Coralina começou a escrever poemas e contos quando tinha 14 anos, chegando a publicá-los em 1908, no jornal de poemas “A Rosa”, criado com algumas amigas. Em 1910, seu conto “Tragédia na Roça” foi publicado no “Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás”, usando o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911, fugiu com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, indo morar em Avaré, no interior de São Paulo. Em 1922, Cora Coralina foi convidada para participar da Semana de Arte Moderna, mas foi impedida pelo marido. Em 1934, depois da morte do marido, Cora Coralina tornou-se doceira para sustentar os quatro filhos. Viveu por muito tempo de sua produção de doces. Embora continuasse escrevendo, produzindo poemas ligados à sua história e aos ambientes em que fora criada, se dizia mais doceira do que escritora. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno.

Em 1965, com 75 anos, Cora Coralina conseguiu realizar o seu sonho de publicar o primeiro livro “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Em 1970, toma posse da cadeira nº. 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Em 1976, lança seu segundo livro “Meu Livro de Cordel”. O interesse do grande público só foi despertado graças aos elogios do poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1980. Nos últimos anos de sua vida, sua obra foi reconhecida sendo convidada para participar de conferências e programas de televisão. Cora Coralina foi agraciada com o título de Doutor Honoris Causa da UFG. Recebeu o “Prêmio Juca Pato” da União Brasileira dos Escritores, como intelectual do ano de 1983, com o livro “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha”. Em 1984, é nomeada para a Academia Goiana de Letras, ocupando a cadeira nº. 38.

A poetisa que escreveu sobre o seu tempo e sobre o futuro, destacando a realidade das mulheres dos anos de 1900, é o principal nome da cidade de Goiás. Em 2002, a cidade de Goiás com sua paisagem urbana predominantemente marcada pela arquitetura dos séculos 18 e 19, recebeu o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, dado pela Unesco. A casa onde morou a poetisa Cora Coralina é hoje o museu da escritora.

E para você, quem são as suas escritoras favoritas?

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