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Todos os dias é dia da poesia!

O Dia Nacional da Poesia era comemorado no dia de hoje, 14 de março, em referência à data de nascimento de Antônio Frederico de Castro Alves. Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 no município de Muritiba, Bahia. Em suas poesias, expunha os problemas envolvendo a escravidão e as crueldades cometidas com os negros escravos de sua época. Reconhecido como o “Poeta dos Escravos”, entre as obras desse ferrenho defensor do sistema republicano destacam-se “Navio Negreiro” e “A Canção do Africano”, as quais, indubitavelmente registram sua indignação a respeito do sistema de governo de então. Seu legado constitui-se de poemas revestidos de um lirismo ímpar, merecidamente considerados os mais lindos do Brasil.

 

Em 2015, um novo projeto foi elaborado com o pedido de instituição da data do Dia da poesia, o dia 31 de outubro, em homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o decreto de lei instituiu a data 31 de outubro como o Dia Nacional da Poesia. Ou seja, oficialmente, o Dia Nacional da Poesia é comemorado no dia em 31 de outubro. Desta vez, o homenageado é o mineiro Carlos Drummond de Andrade, importante poeta brasileiro e que também merece a homenagem. 

 

Ainda existe uma terceira data! O dia 21 de março, criado pela UNESCO, em 1999, com o objetivo de estimular a produção e celebrar a poesia como forma de arte em todo o mundo. Mas, como todo dia é dia de poesia, hoje comemoramos a data em homenagem ao poeta Castro Alves com a poesia O Navio Negreiro, uma das mais lindas do Brasil! 

 

O Navio Negreiro (Tragédia no Mar)

 

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço

 

Brinca o luar — dourada borboleta;

 

E as vagas após ele correm… cansam

 

Como turba de infantes inquieta.

 

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento

 

Os astros saltam como espumas de ouro…

 

O mar em troca acende as ardentias,

 

— Constelações do líquido tesouro…

 

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos

 

Ali se estreitam num abraço insano,

 

Azuis, dourados, plácidos, sublimes…

 

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

 

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

 

Ao quente arfar das virações marinhas,

 

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

 

Como roçam na vaga as andorinhas…

 

Donde vem? onde vai? Das naus errantes

 

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

 

Neste saara os corcéis o pó levantam,

 

Galopam, voam, mas não deixam traço.

 

Bem feliz quem ali pode nest’hora

 

Sentir deste painel a majestade!

 

Embaixo — o mar em cima — o firmamento…

 

E no mar e no céu — a imensidade!

 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

 

Que música suave ao longe soa!

 

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

 

Pelas vagas sem fim boiando à toa!

 

Homens do mar! ó rudes marinheiros,

 

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

 

Crianças que a procela acalentara

 

No berço destes pélagos profundos!

 

Esperai! esperai! deixai que eu beba

 

Esta selvagem, livre poesia,

 

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

 

E o vento, que nas cordas assobia…

 

………………………………………………….

 

Por que foges assim, barco ligeiro?

 

Por que foges do pávido poeta?

 

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

 

Que semelha no mar — doudo cometa!

 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

 

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

 

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

 

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

 

II

 

Que importa do nauta o berço,

 

Donde é filho, qual seu lar?

 

Ama a cadência do verso

 

Que lhe ensina o velho mar!

 

Cantai! que a morte é divina!

 

Resvala o brigue à bolina

 

Como golfinho veloz.

 

Presa ao mastro da mezena

 

Saudosa bandeira acena

 

As vagas que deixa após.

 

Do Espanhol as cantilenas

 

Requebradas de langor,

 

Lembram as moças morenas,

 

As andaluzas em flor!

 

Da Itália o filho indolente

 

Canta Veneza dormente,

 

— Terra de amor e traição,

 

Ou do golfo no regaço

 

Relembra os versos de Tasso,

 

Junto às lavas do vulcão!

 

O Inglês — marinheiro frio,

 

Que ao nascer no mar se achou,

 

(Porque a Inglaterra é um navio,

 

Que Deus na Mancha ancorou),

 

Rijo entoa pátrias glórias,

 

Lembrando, orgulhoso, histórias

 

De Nelson e de Aboukir.. .

 

O Francês — predestinado —

 

Canta os louros do passado

 

E os loureiros do porvir!

 

Os marinheiros Helenos,

 

Que a vaga jônia criou,

 

Belos piratas morenos

 

Do mar que Ulisses cortou,

 

Homens que Fídias talhara,

 

Vão cantando em noite clara

 

Versos que Homero gemeu…

 

Nautas de todas as plagas,

 

Vós sabeis achar nas vagas

 

As melodias do céu!…

 

III

 

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

 

Desce mais … inda mais… não pode olhar humano

 

Como o teu mergulhar no brigue voador!

 

Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!

 

É canto funeral! … Que tétricas figuras! …

 

Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

 

IV

 

Era um sonho dantesco… o tombadilho

 

Que das luzernas avermelha o brilho.

 

Em sangue a se banhar.

 

Tinir de ferros… estalar de açoite…

 

Legiões de homens negros como a noite,

 

Horrendos a dançar…

 

Negras mulheres, suspendendo às tetas

 

Magras crianças, cujas bocas pretas

 

Rega o sangue das mães:

 

Outras moças, mas nuas e espantadas,

 

No turbilhão de espectros arrastadas,

 

Em ânsia e mágoa vãs!

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente…

 

E da ronda fantástica a serpente

 

Faz doudas espirais …

 

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

 

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

 

E voam mais e mais…

 

Presa nos elos de uma só cadeia,

 

A multidão faminta cambaleia,

 

E chora e dança ali!

 

Um de raiva delira, outro enlouquece,

 

Outro, que martírios embrutece,

 

Cantando, geme e ri!

 

No entanto o capitão manda a manobra,

 

E após fitando o céu que se desdobra,

 

Tão puro sobre o mar,

 

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

 

“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

 

Fazei-os mais dançar!…”

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

 

E da ronda fantástica a serpente

 

Faz doudas espirais…

 

Qual um sonho dantesco as sombras voam!…

 

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

 

E ri-se Satanás!…

 

V

 

Senhor Deus dos desgraçados!

 

Dizei-me vós, Senhor Deus!

 

Se é loucura… se é verdade

 

Tanto horror perante os céus?!

 

Ó mar, por que não apagas

 

Co’a esponja de tuas vagas

 

De teu manto este borrão?…

 

Astros! noites! tempestades!

 

Rolai das imensidades!

 

Varrei os mares, tufão!

 

Quem são estes desgraçados

 

Que não encontram em vós

 

Mais que o rir calmo da turba

 

Que excita a fúria do algoz?

 

Quem são? Se a estrela se cala,

 

Se a vaga à pressa resvala

 

Como um cúmplice fugaz,

 

Perante a noite confusa…

 

Dize-o tu, severa Musa,

 

Musa libérrima, audaz!…

 

São os filhos do deserto,

 

Onde a terra esposa a luz.

 

Onde vive em campo aberto

 

A tribo dos homens nus…

 

São os guerreiros ousados

 

Que com os tigres mosqueados

 

Combatem na solidão.

 

Ontem simples, fortes, bravos.

 

Hoje míseros escravos,

 

Sem luz, sem ar, sem razão…

 

São mulheres desgraçadas,

 

Como Agar o foi também.

 

Que sedentas, alquebradas,

 

De longe… bem longe vêm…

 

Trazendo com tíbios passos,

 

Filhos e algemas nos braços,

 

N’alma — lágrimas e fel…

 

Como Agar sofrendo tanto,

 

Que nem o leite de pranto

 

Têm que dar para Ismael.

 

Lá nas areias infindas,

 

Das palmeiras no país,

 

Nasceram crianças lindas,

 

Viveram moças gentis…

 

Passa um dia a caravana,

 

Quando a virgem na cabana

 

Cisma da noite nos véus …

 

…Adeus, ó choça do monte,

 

…Adeus, palmeiras da fonte!…

 

…Adeus, amores… adeus!…

 

Depois, o areal extenso…

 

Depois, o oceano de pó.

 

Depois no horizonte imenso

 

Desertos… desertos só…

 

E a fome, o cansaço, a sede…

 

Ai! quanto infeliz que cede,

 

E cai p’ra não mais s’erguer!…

 

Vaga um lugar na cadeia,

 

Mas o chacal sobre a areia

 

Acha um corpo que roer.

 

Ontem a Serra Leoa,

 

A guerra, a caça ao leão,

 

O sono dormido à toa

 

Sob as tendas d’amplidão!

 

Hoje… o porão negro, fundo,

 

Infecto, apertado, imundo,

 

Tendo a peste por jaguar…

 

E o sono sempre cortado

 

Pelo arranco de um finado,

 

E o baque de um corpo ao mar…

 

Ontem plena liberdade,

 

A vontade por poder…

 

Hoje… cúm’lo de maldade,

 

Nem são livres p’ra morrer. .

 

Prende-os a mesma corrente

 

— Férrea, lúgubre serpente —

 

Nas roscas da escravidão.

 

E assim zombando da morte,

 

Dança a lúgubre coorte

 

Ao som do açoute… Irrisão!…

 

Senhor Deus dos desgraçados!

 

Dizei-me vós, Senhor Deus,

 

Se eu deliro… ou se é verdade

 

Tanto horror perante os céus?!…

 

Ó mar, por que não apagas

 

Co’a esponja de tuas vagas

 

Do teu manto este borrão?

 

Astros! noites! tempestades!

 

Rolai das imensidades!

 

Varrei os mares, tufão!…

 

VI

 

Existe um povo que a bandeira empresta

 

P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…

 

E deixa-a transformar-se nessa festa

 

Em manto impuro de bacante fria!…

 

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

 

Que impudente na gávea tripudia?

 

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto

 

Que o pavilhão se lave no teu pranto!…

 

Auriverde pendão de minha terra,

 

Que a brisa do Brasil beija e balança,

 

Estandarte que a luz do sol encerra

 

E as promessas divinas da esperança…

 

Tu que, da liberdade após a guerra,

 

Foste hasteado dos heróis na lança

 

Antes te houvessem roto na batalha,

 

Que servires a um povo de mortalha!…

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

 

Extingue nesta hora o brigue imundo

 

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

 

Como um íris no pélago profundo!

 

Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga

 

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

 

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

 

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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